rush

a televisão do metrô avisa: tenham cuidado com a chuva, informem-se sobre a chuva antes de sair de casa. algo assim. e depois o site da CAESP (dúvida) embaixo bem pequeno, fui ler e alguém tampou o televisor. metrô lotadaço. lembro a ignorada que um senhor nordestino deu ao segurança logo antes de embarcar, que gritava: “se fiz fila dupla não vai dar pra entrar”. fizer, dar, entrar. fazia tempo que eu não vinha pra são paulo, alguma vezes eu até já tinha vindo, mas agora me pergunto: quando acabará a estranheza do R? parece que sotaques delimitam territórios, territórios ambulantes. fui anotar essa frase no celular, mas estava sem bateria. lembro imediatamente da júlia comentando com o fred anteontem no bar: (o assunto da conversa era falar mal de mim): e o celular? sem-pre sem bateria! fiquei com raiva. me destraí pensando: que frase poderosa essa da julia, que se reproduz sozinha depois, tipo um bilhete, uma voz invisível. então peguei o celular para anotar ‘frase poderosa, bilhete invisível’, e lembrei da bateria, lembrei da júlia outra vez, e lembrei que “frase poderosa etc” era o elemento número 2 da lista de coisas-que-deveria-lembrar-de-escrever, e me perguntei: o número 1 qual mesmo?… os poderes do sotaque, pensei. que engraçado, poderoso, poder, pensei em maquiavel e em foucault ao mesmo tempo, de fato instantâneo que nem sei em quem veio primeiro à mente. achei isso engraçado e dei uma risada meio louca no vagão. que era a mesma de ontem, ontem na mesa do bar, quando o mendigo passou enquanto eu gargalhava de algo que já não sei mais e disse: parece um galo! e no meio do vagão agora ninguém entendi o galo, a risada, a piada. parei de rir meio recriminado.próxima estação: república. até a luz só mais uma. pensei na lista outra vez e parei na frase poderosa da júlia. e lembrei dela como se a voz agora dissesse: tenham cuidado com a chuva, informe-se sobre a chuva antes de sair de casa. será que ‘já estaria’ chovendo? tive certeza que sim, e aparentemente todo mundo do vagão também teve, pois quando as portas abriram na luztodos saíram correndo para baixare tinha um monte, uma montanha, uma caidea montanhosa de gente, de altos e baixas(fred me parou agora para mostrar as fotos do celular que ele estava descarregando para o computador. fred é conservador – e o nome dessa profissão é de todas definitivamente o mais engraçado –, enfim, fred, uma bicha conservadora, me olhou e disse: olha gente, só foto de pinto e quadro, risos, olha, di cavalcanti e uma piroca. mais risos. e ó, essa era a vista da minha outra casa – e me mostrou uma foto panorâmica do largo do chá, com o banespa ao fundo, um dia azul de sp, a foto parecia até resgatar uma outra foto, familiar em minha memória pictória, talvez algo tipo anos 20? sei lá, de qualquer forma um prédio alto, muito alto, então perguntei: a senhora não ficava dizzy lá de cima não? não viado, que velha a senhora. e foi então que entendi o Vértigo segundo frederico)enfim, altas e baixos, gente de toda largura e altura, todos saindo feito um enlatado calcificado e chegando na plataforma em despegue feito gelatina incolor, numa pressa, numa chuva-que-voticontar. subimos as escadas prum patamar mais elevado, e proutro, e pronde nem-subir-mais-subia, até chegar num lugar mais apertado, numa rampinha dividida ao meio por grades altas o suficiente para não serem ultrapuladas, de forma que havia agora duas metades: a de ida, e a de volta; a de desce, e a de sobe; a de quem fugia da chuva e a de quem estava fadado a ser seu refém, e essas últimas seguíamos agora mais apertados ainda, por razões que eu não tinha a menor ideia, e o contra-fluxo vinha tipo saltitante descendo a rampa, enquanto nossos ombros tão colados mais pareciam uma romaria. olhei para o rosto de uma mulher de rabo de cavalo e saia longa, que tinha uma caixa de papelão no colo, e ela seguia devagar para frente com seus olhos além, além; um homem ao meu lado, grisalho, musculos pela regata, com um olhar semelhantemente cansado, de quem também não estava ali. uma romaria sem oração, pensei, e pensei em anotar, pensei em tudo, lembrei de tudo e perdi tudo no instante seguinte. até os itens mais recentes da lista me escapavam agora nesse aperte, todos se apresuntando a si próprios. segui e mais à frente foi que eu vi: a gente tava impressada porque tinham umas catracas ao fim da rampa, onde todo mundo tinha que enfileirar-se para passar individualmente, e como ninguém queria ficar preso na chuva e todos corriam na fila se apertando um ao outroquando eu vi, senti um pau roçar em mimultrapassei a porteira pelo fluxo, virei imediatamente para trás mas não vi consegui ver o filho da puta, só o que vi foi esse plasma de gente, essa massa que se dividia em tentáculos retilíneos mais perto das catracas. quando virei, todos se rarefaziam num ambiente novo e mais espaçoso, nessa espécie de “hub” pós-catraca, onde as paredes inclusive haviam mudado de cor, eram metálicas agora, e eu tal como todos também corria, sem muito bem saber para onde, várias escadas rolantes se exibiam ao lado de placas com nomes provavelmente indígenas e com números coloridos ao lado, mas nenhuma dela dizia:saídae eu simplesmente entrei na fila circular que se fazia ao pé de uma delas e como gueishas impacientes íamos arrastando os pés adiante, esperando montar num degrau em movimento. quando era minha vez, olhei com raiva para ver quem estava atrás de mim. uma moça negra. ela me sorriu calmamente com certa camaradagem. respirei. e fiquei observando a faixa amarela do pré-embarque, e as pessoam subindo como em uma superfície não familiar, e com a destreza adequada para tal, e embarcando na escada parecia que o rush agora parava, ou que as escadas tinham seu ritmo próprio, sem rush nenhum, e ficavam ali o dia todo, protegidas da chuva, e por isso mesmo na exata velocidade constante, por horas a fio.chegamos a uma outra plataforma, a da luz mesmo, digo, dos trens da luze a passagem era ainda mais apertada, eu ainda buscava incessantemente a placa de saída, mas ironicamente todas apontavam para baixo, sendo que as escadas eram só de subida, e eu era agora o próprio contra-fluxo, sozinho contra a maré de gente que chegavam afobadas e exaustas à plataforma de cima, foi quando avistei um segurança e lhe perguntei onde é que a saída era, e, não antes de um olhar seu às minhas unhas pintadas, ele respondeu com certa indiferença: a saída é lá no finale saí correndo, corri mesmo, meio que comecei a desviar das pessoas pousando minha mão nos ombros alheios, pedindo passagem sem nem pedir, e quando já descia a escada, olhei para a plataforma de novo, buscando uma brecha de céu, mas vi garoas que nem sei se choviam, e segui assim, apressado, ainda na dúvida da chuva, e só quando eu alcancei as portas altas e largas que dão para o parque da luz que percebi que já garoava forte, gotas claras contra céu meio laranja, gotas caindo ainda em silêncio do lado de fora.